José Andrade


Assistir, perplexo e atônito a Presidente do Brasil, Sra. Dilma Rousseff, ser xingada durante a abertura da copa do mundo. Trata-se de uma senhora de 67 anos, mãe, avó, que ali estava ao lado de sua filha única, cumprindo uma função protocolar do seu oficio. Senti-me constrangido e enternecido, quando um pedaço da multidão rosnou: “Ei Dilma vá tomar no c...” Constrangido porque ao meu lado estavam pessoas de outros países. Enternecido porque compreendi o desconforto daquela filha e daquela mãe. Quando Dilma foi exibida no telão do estádio vibrando com o segundo gol do Brasil, arrastou, solitariamente, uma segunda onda de xingamentos. Após a comemoração do terceiro gol, ela ouviu um derradeiro urro: “Ei, Dilma, etc…”
O que fizeram com Dilma no Itaquerão foi imperdoável. Ela foi vaiada na Copa das Confederações, mas vaiar autoridade em estádio parece parte do espetáculo. São preferíveis as vaias, a o silencio da ditadura, que a prendeu, durante dois anos e a torturou barbaramente. A mesma ditadura que prendeu, torturou e matou dezenas de brasileiros. A plateia do Itaquerão, formada por pessoas da classe media com grana para pagar ingressos caros, xingou a Presidente da Republica com palavrões de baixo escalão. Mais do que uma pose momentânea, uma presença física, o Presidente da Republica é uma faixa. Xinga-la significa ofender a instituição. O Xingamento realizado durante a abertura da copa foi transmitido em rede mundial, caracterizando-se como algo hediondo. O que a torcida fez, nesta ultima quinta-feira, foi informar ao mundo que o Brasil não é uma nação civilizada.
Muita gente achava que Dilma merecia uma reprimenda sonora. Mas a humilhação do xingamento transpassou a figura da presidente, atingindo a própria Presidência. Atingindo sua família e os milhares de brasileiros e brasileiras que se sentem representados por ela. Escrevo estes pensamentos, no dia em que completa 65 anos que Simone de Beauvoir, publicou seu livro “O Segundo Sexo.” Este livro explica a questão da formação da identidade feminina como sendo o resultado do que a sociedade espera da postura da mulher. Mais de meio século da publicação de “O Segundo Sexo,” o episodio vivido por Dilma Rousseff, nos faz constatar que as coisas não mudaram muito. A mulher ainda terá que lutar bastante para ser tratada e respeitada perante o homem, tendo o direito de se exprimir e de ascender socialmente por meio do seu trabalho.
Amigos, paroquianos, leitores, alguns de vocês não concordam com a atual politica da Presidente da Republica e nem com a ideologia do partido ao qual ela é filiada. Discordar com inteligência é útil e necessário. Faz bem a democracia. Não vejo nenhum problema em divergirmos. “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lá." (Voltaire) No dia da eleição, votem segundo a consciência de vocês, no candidato que julgarem justo e merecedor de ser votado. Eu, cidadão brasileiro, jornalista, sacerdote católico, consciente da minha responsabilidade de formador de opinião, repudio o triste episodio ocorrido durante a abertura da copa do mundo, me solidarizo com a presidente e a parabenizo pela sua declaração feita nesta sexta-feira a noite, durante evento realizado em Brasília. "Eu já aguentei muita coisa, agressão física, tortura, e não mudei de lado. E nem saí querendo acabar com as pessoas que fizeram. Não tive rechanchismo. Quem perdoa, ganha. E 'perdoa' não é esquecer, 'perdoa' não é discutir, 'perdoa' não é aceitar que se repita ou compactuar com isso. 'Perdoa' é não deixar que entre no seu coração o veneno do ódio. Esse veneno do ódio que nem eu e nem vocês podemos deixar entrar no coração", afirmou a presidente.




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