José Andrade
Cheguei a Taubaté-SP, na ultima sexta-feira por volta das 23 h, após ter saído de Salvador-BA num vôo da Gol com duas escalas em Ilhéus e Belo Horizonte. Deixei a Bahia num dia em que o céu estava completamente azul e encontrei a cidade de São Paulo chuvosa, fazendo aquele friozinho que não pode faltar na metrópole que nos engole, assim, que dela nos aproximamos. Enquanto o avião sobrevoava o estado de Minas Gerais, uma comissária informou estarmos atravessando uma área de turbulência. Passaram-se alguns minutos e a mesma comissária avisou que iríamos atravessar uma área de instabilidade. Turbulência ou instabilidade?
Caminhando ou voando, na terra ou no ar, temos que atravessar diversas áreas de turbulência. Sobreviveremos a elas? Sobreviveremos, embora, deixem em nós conseqüências que precisam ser superadas para que a vida não fique esquecida no guarda-volume de um aeroporto qualquer.
O fato de a comissária ter preferido substituir área de turbulência por área de instabilidade para amenizar o medo dos passageiros, em nada, amenizou o meu sofrimento. Somos seres instáveis por natureza. Nossa existência é uma área de instabilidade onde muitas vezes nos perdemos em busca de estabilidade.
Depois de tantas idas e vindas, viajando de avião, eu comecei a sentir medo, sempre que embarco numa aeronave, fico tenso, segurando disfarçadamente o braço da poltrona. Segurando o inseguro, sem saber o quanto isso é perigoso! Repito um ritual tão antigo quanto as nossas próprias inseguranças; seguro-me no inseguro. Onde encontrar segurança, quando nos sentimos inseguros diante da vida?
Turbulências aéreas são metáforas daquelas outras turbulências que estão dentro de nós, que tanto nos inquietam e amedrontam! Não sabemos quando elas vão passar, mas sabemos que passam. Já passei por várias e sobrevivi a cada uma delas. A gente sempre sobrevivi e vivi! Aprendi que viver é uma arte que exigi de nós determinação, humildade e fé, porém a mais importante é a fé.
Na fé eu encontro a estabilidade necessária para viver e morrer. Minha coragem e meu instinto de sobrevivência provem da certeza na existência de Deus. Nela eu encontro a determinação e a humildade que a vida exige para que eu não me fira enquanto atravesso uma área de turbulência ou de instabilidade. Não tenho medo do vento contrário e nem da escuridão, pois quem caminha ao contrario do vento sou eu mesmo, o contrário. Numa terra de fugitivos quem caminha em sentido contrário parece está fugindo. (Eliot)
Acabei de chegar à conclusão que não é de turbulência que eu tenho medo, mas da metáfora que aponta para dentro de mim. Senhor livra-me de mim.
