A janela bêbada de neblina abre-se para uma cidade que uiva como cães perdidos ao verem sepultados os seus donos. Nesse ambiente nebuloso, movem-se centenas de personagens noturnos, cujos olhos são tão tristes como as manhãs das sextas-feiras da paixão vividas na minha infância. A Avenida São João conta a triste saga dos cães perdidos. Bem mais triste do que a saga contada por Graciliano Ramos em seu livro “Vidas Secas”. Vidas secas são as dos personagens dessa noite, aonde só a neblina vem aliviar-lhes a dor e molhar a solidão. Vidas secas, folhas secas tangidas pelo vento somos nós, andando ou não, amando ou não.
A janela fecha-se para a noite enquanto a folha seca e úmida de neblina segue rolando pela calçada. A noite geme como um moinho de vento.


Anoiteceu cedo! No inverno é assim; as noites chegam mais cedo e custam a passar. Mas hoje não é inverno, não é noite e nem é dia. Hoje é o que existe entre o tudo e nada. Perderam-se as estações e o relógio que contava o tempo perdeu os ponteiros como um velho cão que perde os dentes.

Amanheceu cedo! No verão é assim; os dias chegam mais cedo e custam a passar. Mas hoje não é verão, não é noite e nem é dia. Hoje é o que existe de mais sagrado entre o céu e a terra. É o presente sem precedente e o futuro sem passado. Presente é presente! O futuro a Deus pertence. A nós, o presente!


 O relógio enlouqueceu de vez o tempo e perdeu-se na confusão das horas perdidas. Precipitou-se no vácuo da hora em que a natureza troca de guarda. Perdi a hora, o sonho e o sono. Perdi inclusive a chave do camarim da tarde que dói de tão igual. O que eu não perdi foi o som da voz que badala dentro da minha alma dando norte a minha vida. Estou acertando o ponteiro do relógio e convivendo com os meus desalinhos. Foi só o tempo que errou.