José Andrade

Às vezes sou acometido de uma estranha vontade de escrever a cada um dos meus amigos. É como se o meu peito explodisse e dele jorrasse todos os sentimentos do mundo. Infelizmente não escrevo nada a ninguém. Escrever é perigoso. Quem já tentou, sabe. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que escrevo escondem outras – quais? Talvez um dia eu escreva. Escrever é pular de paraquedas no escuro. Hoje refleti sobre a liberdade. Li um pequeno texto de Clarice Lispector a propósito do que eu estava refletindo. Refleti mas tive medo de escrever! Então, peço a bênção a Clarice para partilhar com você um trechinho do que ela escreveu sobre essa liberdade inocente que vive e morre no coração da gente.

“- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende.” (Do livro Um sopro de vida)



Cecilia Meireles 
 
De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


 

JOSÉ ANDRADE

A cidade agora é um vão de luz deixado para trás. Eu vou avançando pela estrada, me embrenhando na noite. Mas esta, não é uma noite qualquer, pois ela nos remete a outra que jamais foi esquecida. A noite escura do Monte das Oliveiras, nela se embrenha Jesus, faz parte dela a solidão e o abandono vivido por Ele, que, vai ao encontro da escuridão e da morte.

Olho para traz, não avisto sequer um único vestígio da cidade, agora submersa no negrume da quinta-feira da paixão, eu embrenhado nela, sendo arremessado à noite dos tormentos. Faz parte desta noite a traição de Judas e a prisão de Jesus, bem como a negação de Pedro; e ainda a acusação diante do Sinédrio e a entrega aos pagãos, a Pilatos.

Jesus embrenhado na noite... Ele parece recuar assustado diante de uma realidade tão monstruosa! Sinto-me deveras também assustado, embrenhado na escuridão de tal sorte que dentro de mim também é noite.   Sinto que é noite. Não porque escureceu e a cidade ficou para traz, mas porque dentro de mim, no fundo de mim, residem os mesmo sentimentos de Cristo.
 Jesus estende o olhar pelas noites do mundo: vê a maré das nossas circunstâncias feitas de mentira, da não compreensão, da falta de dialogo, do obscurecimento da verdade. Nós também somos noite! Não nos vemos um ao outro. Diria Drummond: Que adianta uma lâmpada, uma voz? É noite no meu amigo!  É noite no Monte das Oliveiras, no meu coração...
 Jesus entra na noite para ilumina-la, transforma-la em dia! Diria ainda Drummond: É noite, não é morte, é noite! Não é dor e nem paz, é noite.