José Andrade

Acordei ouvindo as primeiras vozes do dia, vinham da sala e da cozinha, senti nas minhas retinas fadigadas os raios do sol que ousaram atravessar o tecido grosso da cortina que revestia a grande porta de vidro que dava aceso a cobertura. Procurei identificar onde eu havia dormido, de quem eram as vozes, qual era o dia da semana, a data e quais seriam meus compromissos para aquele dia. Diariamente, quando eu acordo, antes de abrir os olhos, cumpro a estranha tarefa de acordar primeiro para dentro. Você já acordou para dentro de se mesmo? Quando acordei para fora, eu já estava sabendo que aquelas vozes, além de serem as primeiras do dia, eram também as primeiras do ano. Quem falava era Robson, eu havia dormido na casa dele, na noite de réveillon.  As outras vozes eram de suas avós e de seus pais, Jaime e Inês.
 Senti um aroma gostoso de café vindo da cozinha. Não tinha mais como eu ficar acordado resistindo ao primeiro dia do ano me chamando para vê-lo. O que eu acho curioso nas cafeteiras modernas é a capacidade que elas têm de satisfazer o meu paladar apenas com o cheiro que elas exalam, sem que eu faça questão de saborear o café depois de pronto. Fui andando na ponta dos pés ate a piscina para intimamente cumprir um ritual de ano novo que é particularmente meu. Ainda era fácil encontrar resquícios da alegria que restara da noite de réveillon. Havia, ali, naquele canto da casa um silencio enternecedor. A água da piscina era de um azul de fazer inveja a Picasso. Senti-me como se eu fosse um personagem sem nome de uma das telas daquele que é considerado o maior pintor do século xx. Gosto das telas deste grande artista engajado e comprometido nas lutas em favor da vida e da liberdade, principalmente as da fase azul (1901 a 1905), período em que ele pintou a solidão, a morte e o abandono.
A piscina era uma imensa tela do azul de Picasso, estendida sobre o piso recentemente revestido de madeira, agora servindo de moldura a tela. Talvez por eu não ser triste e nem alegre, porém poeta pus-me a pensar no mundo fora da moldura. O primeiro dia do ano não é o primeiro dia da vida, mas é como se fosse. Foi este o meu primeiro pensamento do ano. Temos a ilusão de zerar nossas desilusões, esquecer tudo o que doeu em nós e ter de volta tudo que perdemos. Quem dividiu o tempo em pequenas e grandes fatias, e deu o nome de segundos, minutos, meses e ano, foi mesmo uma pessoa genial. “Industrializou a esperança fazendo-a chegar ao limite da exaustão. Doze meses dá para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entre o milagre da renovação e tudo começa outra vez... Com outro numero e outra vontade de acreditar que daqui para diante tudo será diferente.” (Carlos Drummond de Andrade)
O réveillon é para comemorar a chegada de mais um ano, mas também para nos fazer esquecer o ano que passou. O ano que se desfez é o tempo que deixou de ser, que não mais existe. É fósforo que foi riscado! Envelhecemos trinte e um milhão, quinhentos e trinte e seis segundos, quinhentos e vinte cinco mil e seiscentos minutos, oito mil setecentas e sessenta horas, trezentos e sessenta e cinco dias, doze meses.  Resumindo a opera: envelhecemos um ano! Depois da metade do caminho a gravidade ajuda. Os físicos me desmintam se eu estiver mentindo. O ano passado é agora uma tela da fase azul de Picasso pendurada na parede. Feliz ano velho?


José Andrade

Gosto do teu jeito polêmico de ser, mesmo quando eu prefiro o silêncio dos momentos difíceis. 
Gostos dos teus olhos de mar, mesmo sabendo que  Deus  deu ao mar os abismos e o perigo.
Gosto da tua poesia enrustida, mesmo quando eu sei que faz tempo, tempo, tempo, tempo, que tirei a minha do armário. 
Gosto da tua irreverência, mesmo quando eu reverencio os que tecem a vida e os que bordam o tecido com que a vida é feita.
 Gosto da tua alegria exagerada, esparramada pela vida a fora, mesmo quando eu sei que a alegria desmedida é palha queimando, destinada a virar cinza.
 Gosto da tua covardia, a qual você chama prudência, mesmo quando eu sei que a vida quer é coragem.
Gosto das tuas ilusões perdidas, mesmo quando eu descubro que não sei o que fazer com as minhas.
Gosto dos teus sonhos inúteis e da tua alma mutilada, mesmo quando a vida me diz que é preciso gastar mais tempo realizando do que sonhando.
Gosto das tuas faltas e das tuas loucuras, mesmo quando eu sou obrigado a lhe dizer que um erro se comete em um minuto e se gasta uma vida inteira para corrigi-lo.
Gosto das tuas bandeiras e entradas, mesmo quando eu tenho que usar de discrição para lhe dizer que o cerimonial da vida, deixa de fora os afetados.
Gosto da tua alma refugiada entre as cicatrizes do teu corpo, mesmo quando eu sei que quem tem alma não tem calma.
Gosto da tua vida infernal, mesmo quando eu reconheço que ninguém tem o direito de fazer da vida do outro um inferno.
Gosto da tua falta de palavras, mesmo quando é através delas que eu me construo e invento pessoas e cenários invisíveis 
Gosto dos mil e um motivos que eu tenho para gostar de você, e se não os tivesse, mesmo assim eu ainda gostaria.
Gosto de você porque simplesmente o amor nos dispensa apresentações, explicações e complicações.
O amor nem se explica, nem se complica porque já é complicado. É mistério! Deus é amor. 
   
É melhor amar do que explicar.




José Andrade
Cheguei a Taubaté-SP, na ultima sexta-feira por volta das 23 h, após ter saído de Salvador-BA num vôo da Gol com duas escalas em Ilhéus e Belo Horizonte. Deixei a Bahia num dia em que o céu estava completamente azul e encontrei a cidade de São Paulo chuvosa, fazendo aquele friozinho que não pode faltar na metrópole que nos engole, assim, que dela nos aproximamos. Enquanto o avião sobrevoava o estado de Minas Gerais, uma comissária informou estarmos atravessando uma área de turbulência. Passaram-se alguns minutos e a mesma comissária avisou que iríamos atravessar uma área de instabilidade. Turbulência ou instabilidade?
Caminhando ou voando, na terra ou no ar, temos que atravessar diversas áreas de turbulência. Sobreviveremos a elas? Sobreviveremos, embora, deixem em nós conseqüências que precisam ser superadas para que a vida não fique esquecida no guarda-volume de um aeroporto qualquer.
O fato de a comissária ter preferido substituir área de turbulência por área de instabilidade para amenizar o medo dos passageiros, em nada, amenizou o meu sofrimento. Somos seres instáveis por natureza. Nossa existência é uma área de instabilidade onde muitas vezes nos perdemos em busca de estabilidade.
Depois de tantas idas e vindas, viajando de avião, eu comecei a sentir medo, sempre que embarco numa aeronave, fico tenso, segurando disfarçadamente o braço da poltrona. Segurando o inseguro, sem saber o quanto isso é perigoso! Repito um ritual tão antigo quanto as nossas próprias inseguranças; seguro-me no inseguro. Onde encontrar segurança, quando nos sentimos inseguros diante da vida?
Turbulências aéreas são metáforas daquelas outras turbulências que estão dentro de nós, que tanto nos inquietam e amedrontam! Não sabemos quando elas vão passar, mas sabemos que passam.  Já passei por várias e sobrevivi a cada uma delas. A gente sempre sobrevivi e vivi! Aprendi que viver é uma arte que exigi de nós determinação, humildade e fé, porém a mais importante é a fé.
Na fé eu encontro a estabilidade necessária para viver e morrer. Minha coragem e meu instinto de sobrevivência provem da certeza na existência de Deus. Nela eu encontro a determinação e a humildade que a vida exige para que eu não me fira enquanto atravesso uma área de turbulência ou de instabilidade. Não tenho medo do vento contrário e nem da escuridão, pois quem caminha ao contrario do vento sou eu mesmo, o contrário.  Numa terra de fugitivos quem caminha em sentido contrário parece está fugindo. (Eliot)
Acabei de chegar à conclusão que não é de turbulência que eu tenho medo, mas da metáfora que aponta para dentro de mim. Senhor livra-me de mim.