Um poema de José Andrade
Não precisava ninguém dizer nada, o sol já era tudo. O olhar, quase atropelado pelo pensamento, conferia a beleza de cada folha, de cada flor, de cada cor com as quais as casas foram pintadas, formando uma verdadeira aquarela. O pensamento, levado pelo vento, voltou ao passado, contrariando os que dizem que “é para frente que se anda”. Nossos pés andam para frente enquanto o nosso pensamento anda para a trás. Pensei, voltei e não me arrependo. Ao lugar a que voltei, qualquer um voltaria; mas, chegar aonde cheguei, quero ver quem chegaria.
Cheguei e caminhei pelas ruas largas, sem nenhum vestígio das horas amargas que ficaram presas entre as frestas dos instantes, que se perderam no sucumbir dos sonhos. Na minha frente, a praça se estende diante dos meus olhos, como um leito, onde dorme e sonha a minha felicidade. Pombal, minha terra querida, minha cidade amada, cada átomo de tua poeira, sou eu, vicejante no teu solo fértil, como o coração dos que foram gerados no teu ventre bendito.
Nesta praça ainda dorme minha inocência de menino; nos teus canteiros, semeei minha esperança; sob a sombra de tuas árvores, descansam as alegrias da feira de sexta-feira. Minha alegria permanece sentada nas lanchonetes, à espera do vento, que balança o chão da praça. Fico balançado pelo passado, que insiste em separar-me de ti. Pombal dos meus doces sonhos, dos meus momentos tristonhos, tu vais comigo, pelo mundo afora. Quando penso que estou distante, te encontro sempre a minha espera, nas esquinas por onde vão meus passos.
