Fernando Pessoa

Ave Maria, tão pura Virgem nunca maculada ouvi a prece tirada no meu peito da amargura. Vós que sois cheia de graça escutai minha oração, conduzi-me pela mão por esta vida que passa. O Senhor, que é vosso Filho, que seja sempre conosco, assim como é convosco eternamente seu brilho. Bendita sois vós, Maria, entre as mulheres da Terra e voss'alma só encerra doce imagem d'alegria. Mais radiante do que a luz e bendito, oh Santa Mãe é o Fruto que provém do vosso ventre, Jesus ! Ditosa Santa Maria, Vós que sois a Mãe de Deus e que morais lá no céus, orai por nós cada dia. Rogai por nós, pecadores, ao vosso Filho, Jesus, que por nós morreu na cruz e que sofreu tantas dores. Rogai, agora, oh Mãe querida e (quando quiser a sorte) na hora da nossa morte quando nos fugir a vida. Ave Maria, tão pura Virgem nunca maculada, ouvi a prece tirada no meu peito da amargura.

 
José Andrade

Salve dia 02 de novembro! Dia dos mortos... Hoje a saudade desenhou com linhas perfeitas o perfil exato dos meus familiares e amigos mortos. Senti levemente o vento das horas balançando os nossos cabelos. Foi preciso a saudade para eu sentir como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida. Vida imaginada! Olhei para vida como quem abre uma janela para olhar o mundo. Os rostos dos meus avós, dos meus pais, do meu irmão, dos meus tios, dos meus primos, dos meus amigos, os rostos... Estes rostos desenhados pelas linhas da saudade são tão outros, que em nada se parecem com os dos retratos! Eu tenho de fechar meus olhos para vê-los.






José Andrade
 
Chorei sim! Chorei e não nego! Chorei hoje enquanto eu assistia o filme SOMOS TÃO JOVENS que está em cartaz no circuito nacional. É um filme bonito de se ver, emocionante, que conta a historia de Renato Russo e de como nasceram os grandes sucessos da Legião Urbana.
Conheci a obra do poeta Renato Russo tardiamente quando cheguei a Taubaté no inicio de 1994.  Ao lado de amigos queridos tantas vezes ouvi Renato Russo cantar nossas desilusões, nossos amores, nossa vida e nossa morte. Nunca ouve uma situação que eu tenha vivido que ele não tenha cantado.  Quem nunca curtiu com uma turma de amigos inseparáveis o som de Legião Urbana?
Durante os primeiros minutos do filme eu fiquei logo comovido quando ouvi na voz do ator Thiago Mendonça, a musica que dar nome ao filme. “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo. Então me abraça forte, e diz mais uma vez, que já estamos distantes de tudo.” Contive as lagrimas para não perder a concentração e continuei assistindo o filme.
Era o inicio da tarde do dia 11 de outubro de 1996, eu tinha acabado de chegar a Caraguatatuba no litoral paulista, quando fiquei sabendo que o cantor e compositor Renato Manfredini Júnior havia morrido. Ao cair da tarde eu e meu amigo Helio fomos ao calçadão de Caraguá onde passamos a noite celebrando a vida daquele que havia composto a trilha sonora para tantas vidas da sua geração. Naquela ocasião em todos os bares e quiosques se ouvia certa musica dele como se houve a ultima frese de alguém que se despede para sempre: “Quero colo! Vou fugir de casa! Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo...”.
Quase 20 anos após a morte do vocalista da banda, Legião Urbana, as canções que embalaram minha vida na década de 90 continuam me comovendo. O ponto culminante da minha comoção foi durante um dos momentos dramáticos do filme, durante a interpretação de uma das musicas do poeta morto; “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Tá tudo assim tão diferente! Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre? Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba.”.
Repito; chorei sim! Chorei e não nego! No meu lugar qualquer um chorava. Mudaram as estações, tanta coisa mudou! Eu também mudei... Tá tudo assim tão diferente! Mas ao assistir, no final do filme, as cenas gravadas de Renato cantando eu acho que existe algo que é pra sempre. Não tenho duvida; o pra sempre não acaba!