José Andrade

Quiririm, rio das chuvas, das águas
Rio das águas mansas de sonhos e de sol
Rio das águas, longas amargas magoas
Vagas chuvas enchendo o rio que deságua em mim
O teu rio Quiririm é melhor do que o de Fernando Pessoa.


José Andrade
Bem Belém, a vida vai e vem
É uma estação de trem, solitária, sem ninguém.
Bem Belém, a vida nem sempre é o que convém
Convenhamos nós, cada um vale o que tem
 E às vezes o que não tem.
Bem Belém, tuas tardes mornas,
Tuas noites perfumadas são minhas também.
Senhora da floresta, cidade dengosa,
Tu sabes o quanto de quero bem.
Belém, meu bem, teus sinos me olham.
Teu povo me benze.
Os anjos na basílica tocam trombetas
E dizem Amém.


A janela bêbada de neblina abre-se para uma cidade que uiva como cães perdidos ao verem sepultados os seus donos. Nesse ambiente nebuloso, movem-se centenas de personagens noturnos, cujos olhos são tão tristes como as manhãs das sextas-feiras da paixão vividas na minha infância. A Avenida São João conta a triste saga dos cães perdidos. Bem mais triste do que a saga contada por Graciliano Ramos em seu livro “Vidas Secas”. Vidas secas são as dos personagens dessa noite, aonde só a neblina vem aliviar-lhes a dor e molhar a solidão. Vidas secas, folhas secas tangidas pelo vento somos nós, andando ou não, amando ou não.
A janela fecha-se para a noite enquanto a folha seca e úmida de neblina segue rolando pela calçada. A noite geme como um moinho de vento.